terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ética a serviço do amor


No meu dia a dia jurídico, volta e meia me deparo com algo interessante e que transcende pro mundo extra jurídico. Hoje fiquei conhecendo um texto muito interessante do Rubem Alves, que fala sobre ética. Um pouco longo, mas vale a lida até o final!


AS DUAS ÉTICAS: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos -a que os filósofos dão o nome de ética contextual.
Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre os estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não vêem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe...
Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos vêem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...
Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo.
O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: "Doutor, será que eu escapo desta?"
Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer?
Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: "Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer..." Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações.
A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.
Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: "Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano -"A senhora breve estará curada...'-, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?" E ele dirá:
"Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer..." Aí, então, os dois conversarão longamente -como se estivessem de mãos dadas ...- sobre a morte que os dois haverão de enfrentar. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade.
Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem.
Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará?
Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: "Qual delas está mais a serviço do amor?"

12 comentários:

Amanda disse...

Lindo texto. Eu, apaixonada por Rubem Alves, sou mutíssimo suspeita para comentar. Mas o fato é que eu adoro sua forma de escrever, sempre clara e delicada, sua paixão por jardins... tudo.
Rubem Alves é cativante e tão talentoso que até um texto sobre ética parece um poema.

Um beijo!

Analuz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Analuz disse...

Acho que essa frase sintetiza e muito a problemática:” O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade”. A exemplo do médico, sua fidelidade à exatidão científica deve ser contrabalanceada por crenças, dilemas que o revestem, pois do contrário sua atividade resumir-se-ia num maniqueísmo frio, a desserviço da ciência. Nesse papel a desempenhar,antes de lutar a qualquer preço pela luz da vida,sua meta maior deve se pautar na dignidade da existência alheia.
gde bj
Lili:))

Jou Jou Balangandã disse...

Meninas,

é muito legal quando a gente posta um texto grande, e descobre que alguns amigos realmente investiram tempo na leitura do texto.

Que o absolutismo dos principios não destrua a verdade. Muito grande o Rubem Alves. Realmente fez um texto sobre ética virar um poema!


Obrigada por me visitarem, e por fazerem parte do meu blg. Sem vcs leitores, nada disso teria sentido!!

Evandro Varella disse...

Ei Joujou,
Seus amigos sempre lêem tudo que você posta, mas as vezes não comentam, rsss.
Essa questão dá ética dá prá quilometros de conversa. Que tal na próxima degustação que o MR promover a gente não aborda o assunto? Mas tem que ser logo no começo.
Beijoujous.

Jou Jou Balangandã disse...

Vavá, muitas discordâncias sobre o pessoal realmente ler tudo. Eu tenho um cliente que não costuma ler nem os meus emails, sabe ... rsss

Adorei a sugestão, vamos concretizá-la!

alfa17 disse...

De facto o tema é interessantíssimo e, como todos os que têm essa qualidade, a sua discussão ou debate abre para perspectivas muito amplas, mais do que o próprio texto (muito bom)coloca. Este diz-nos que podemos escolher entre a verdade (frieza) e a bondade (ou amor). Ora a própria questão da verdade absoluta é inesgotável, pois que nem o próprio médico, em rigor, pode SABER se o paciente morre "dessa" ou "outra". Por mais que seja inevitável, ele sempre faz a sua opção, escolhendo a verdade, e acredito que para tal tenha sua explicação que não deve ser tão cega assim...terá suas convicções e nenhuma delas deve incluir a crença que "a crueldade compensa"(em prole da bondade)... o médico, metáfora, também vive os seus dilemas no momento crucial em que uma pergunta dessas lhe é colocada. Além disso, ele é médico, e falará como profissional, embora humano. O jardineiro, metáfora, não responde sobre sua profissão, ele não tem esse SABER, embora possa também estar certo de que a mulher não irá escapar... Se quisermos, mesmo no caso do médico que responde enquanto profissional, ele o faz numa "ética do contexto" (aquele seu enquanto profissional), o que não implica que a resposta fosse a mesma em um outro contexto, pois além de nossas profissões todos assumimos diversos papeis.
o que escrevi, só um esboço de algumas ideias-instantãneas, tem tanto de aceitável como de questionável, por isso comecei por considerar o assunto interessante.
Por mim, adopto uma ética do contexto, sendo que não substimo a verdade, que considero muito importante nas relações humanas, e tantas vezes ela magoa e, ao mesmo tempo, cura. Lá está, dependendo do contexto...

O equilíbrio continua a ser o maior desafio. A tendência é para caír em extremos, oopostos, como o texto indica sobre a ética, ou 0 ou 1, mas a vida é bem mais complexa do que isso...

alfa17 disse...

Concentrando em rima:

Não acredito em mentiras piedosas
Nem em verdades que cheguem por mal
E todas as omissões são muito perigosas...

___

O jardineiro também disse a verdade, mas de outra forma, e o médico também poderia usar do mesmo tipo de "rodeamento". A questão está mesmo no Amor e na Verdade, que considero complementares e não exclusivas.
Muitas pessoas não têm "jardineiros" reconfortantes, e outras encontram "médicos" adeptos da verdade e da compaixão. Jardineiros ou médicos mentirosos serão sempre mentirosos, e não vejo em que ética isso caiba. ou sei, mas não tem nada a ver com verdade e muito menos com bondade.

Parece que a blogueira também opõe empirismo a idealismo, sendo que a opção pelo primeiro é óbvia mas conv´´em não confundir as coisas e discriminar um deles, acusando-o de MAU, sobretudo quando o motivo é a Verdade. Se um vê nas estrelas a verdade e o outro na terra que pisa e cheira ambos são verdadeiros, e há praí cada jardineiro do mal!!! e doutores obviamente.

Analisemos as teorias, estejamos atentos tanto ao ignorante como ao douto, famoso e anónimo,ao ontem e ao hoje, repensando amanhã, e criemos então nossas próprias verdades. Saberemos sempre distinguir o bem do mal, a verdade e a mentira...

Dizer o que o outro precisa ouvir pode ser apenas fácil, pode ser cinismo ou pode ser amor. E no último caso estaremos sempre dizendo a verdade. Ninguém precisa de mentiras, pode querê-las até, mas precisa sempre é do amor verdadeiro.

Dedinhos Nervosos disse...

Que texto maravilhoso! Adorei! Realmente acho que a verdade tem que ser vista de vérios ângulos para que a gente não se torne uma pessoa fria, extremamenta racional quando o assunto em questão é o sentimento alheio.
Um beijo.

Ananias Duarte disse...

Caracas!!! (não é a Capital!)
q tema alucinante!
Longo, mas gostoso de lê.
Complicado, também.
Legal, também os comentários.
Gente muito compenetrada!!!
bjs e obrigado pela visita.

Ananias Duarte disse...

Caracas!!! (não é a Capital!)
q tema alucinante!
Longo, mas gostoso de lê.
Complicado, também.
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Gente muito compenetrada!!!
bjs e obrigado pela visita.

Ananias Duarte disse...

Caracas!!! (não é a Capital!)
q tema alucinante!
Longo, mas gostoso de lê.
Complicado, também.
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Gente muito compenetrada!!!
bjs e obrigado pela visita.