quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Muito mais as mineiras

Ontem assisti o novo seriado da Globo, As Cariocas. Achei exploração da sensualidade feminina por demais. Tudo bem. Prefiro acreditar que se trate de uma obra não real. Mas sou bairrista. Muito mais as mineiras. Nada que uma zoiadinha mineira e que um bom papo não resolva, num é não, uai?! E que o diga Drummond!




As Mineiras

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora? Porque, Deus, que sotaque!
Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: "só isso?" Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina mineira que me ligou por engano, só pelo sotaque.
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar").
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem- lingüisticamente falando - apenas de "uais", "trens" e "sôs". Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade, fala que ele é "bão de serviço". Pouco importa que seja um juiz de direito, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, é claro - ele é "bão de serviço".
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?". Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.
Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: "Mexe com isso não, sô" (leia-se: sai dessa, é fria, etc). O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido, querem saber o seu ofício.
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de "bonitim", "fechadim", e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um 'vamos' completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram, são barradas pelas montanhas.
No supermercado, não faz muitas compras, ela compra um "tanto de coisa". O supermercado não estará lotado, ele terá "um tanto de gente". Se a fila do caixa não anda, é porque está "agarrando" lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: "Ai, gente, que dó". É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.
Não vem caçar confusão pro meu lado. Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão". Leitor, você é meio burrinho ou é impressão? A propósito, um mineiro não pergunta: 'você não vai?'. A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir?" Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema.
Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras. Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar:- "Ah, fui lá comprar umas coisas..." "Que' s coisa?" - ela retrucará. O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que. A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas...
Ontem, uma senhora docemente me consolou: "prôcupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética. E diz tudo. Até o 'tchau' em Minas é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau procê", "tchau procês". É útil deixar claro o destinatário do tchau. Então... "Tchau procês!"
Carlos Drummond de Andrade

10 comentários:

Maria Carol disse...

Amiga, parabéns! Um de seus melhores posts, pra não dizer o melhor!!
Amei!!
Tinha que ser Drummond para escrever com tanto carinho todo nosso charme mineiro.
Bjos!

Jou Jou Balangandã disse...

Amiga, charme muito mais poderoso que decotes e fendas, né?
Eu perdi grande parte do meu sotaque nessas andanças pelo mundo ... mas juro que me esforço pra mantê-lo.

Bejo procê intão!

Wanderley Elian Lima disse...

Eu também, sou muito mais as mineiras. Drummond dispensa comentários.
Bjux

K. disse...

AAAdorei!!!! Tchau prôce!! (com sotaque de capixaba...ou seja dizem que a gente canta um pouco as palavras...então um tchau cantado prôce...heheheh) beijos.

Denise disse...

eu num sou ,mais adoro

tchau procê queridona

uai que trem bão essa postagem sô

afagos com gosto de doce de leite

Jou Jou Balangandã disse...

Wanderley,
viu só que não são só as mineiras que dispensam comentários??

Rsss

Bjou

Jou Jou Balangandã disse...

K.,
acho o nosso jeitim de falar parecidim.

Bjocas!

Jou Jou Balangandã disse...

Dê, eu perdi muita coisa de Minas, mas tenho feito uma tentativa gigantesca pra manter o sotaque. Prometo que na minha próxima ida a SP levo um docim de leite procê!

Bjous

Anônimo disse...

Pq vc não faz uma pesquisa sobre sotaques? Ser bairrista, tudo bem. Mas dizer que o sotaque mineiro é bonito, é forçar demais a barra. Sexy, então, chega a ser um absurdo. O sotaque minerim me remete a gente que mora na roça. Parece os parentes do Chico Bento. Pior até do que os paulistas do interior, que falam porrrrrrrta.

Jou Jou Balangandã disse...

Querido(a) anônimo,
pelo visto, vc não compartilha do mesmo ponto de vista que Carlos Drumond de Andrade e muitas outras pessoas. Paciência ... afinal, o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?

Abraços!