sexta-feira, 12 de junho de 2009

Carpe Diem


"Aí um dia você toma um avião para Paris, a lazer ou a trabalho, em um vôo da Air France, em que a comida e a bebida têm a obrigação de oferecer a melhor experiência gastronômica de bordo do mundo, e o avião mergulha para a morte no meio do Oceano Atlântico. Sem que você perceba, ou possa fazer qualquer coisa a respeito, sua vida acabou. Numa bola de fogo ou nos 4 000 metros de água congelante abaixo de você naquele mar sem fim. Você que tinha acabado de conseguir dormir na poltrona ou de colocar os fones de ouvido para assistir ao primeiro filme da noite ou de saborear uma segunda taça de vinho tinto com o cobertorzinho do avião sobre os joelhos. Talvez você tenha tido tempo de ter a consciência do fim, de que tudo terminava ali. Talvez você nem tenha tido a chance de se dar conta disso. Fim.

Tudo que ia pela sua cabeça desaparece do mundo sem deixar vestígios. Como se jamais tivesse existido. Seus planos de trocar de emprego ou de expandir os negócios. Seu amor imenso pelos filhos e sua tremenda incapacidade de expressar esse amor a eles ou a quem quer que seja. Seu medo da velhice, suas preocupações em relação à aposentadoria. Sua insegurança em relação ao seu real talento, às chances de sobrevivência de suas competências nesse mundo que troca de regras a cada seis meses. Seu receio de que sua mulher, de cuja afeição você depende mais do que imagina, um dia lhe deixe. Ou pior: que permaneça com você infeliz, tendo deixado de amá-lo. Seus sonhos de trocar de casa, sua torcida para que seu time faça uma boa temporada, o tesão que você sente pela ascensorista com ar triste... Suas noites de insônia, essa sinusite que você está desenvolvendo, suas saudades do cigarro... Os planos de voltar à academia, a grande contabilidade (nem sempre com saldo positivo) dos amores e dos ódios que você angariou e destilou pela vida, as dezenas de pequenos problemas cotidianos que você tinha anotado na agenda para resolver assim que tivesse tempo. Bastou um segundo para que tudo isso fosse desligado. Para que todo esse universo pessoal que tantas vezes lhe pesou toneladas tenha se apagado. Como uma lâmpada que acaba e não volta a acender mais. Fim.

Então, aproveite bem o seu dia. Extraia dele todos os bons sentimentos possíveis. Não deixe nada para depois. Diga o que tem para dizer. Demonstre. Seja você mesmo. Não guarde lixo dentro de casa. Não cultive amarguras e sofrimentos. Prefira o sorriso. Dê risada de tudo, de si mesmo. Não adie alegrias nem contentamentos nem sabores bons. Seja feliz. Hoje. Amanhã é uma ilusão. Ontem é uma lembrança. No fundo, só existe o hoje."
* Por Adriano Silva | 04/06/2009 – Revista Exame*

6 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

quem viaja... tá se arriscando.

Anônimo disse...

Anche a me!
Bacci
J.

Analuz disse...

Pois eh,ju,qtos sonhos foram interrompidos.Qtos planos sequer se materializaram.
Episodios chocantes como esse,nos obrigam a refletir sobre nossa essencia,valores e nos voltarmos mais para a espiritualidade.
Ter a consciencia de que a vida-essa dadiva dos ceus-assim como nos fora concedida inexplicavelmente,repentinamente pode ser ceifada.
Adiar planos,postergar a felicidade ao amanha que sequer sabemos como acontecera (e se acontecera) torna o viver sem sentir e sem sentido.
Carpe diem!

MR disse...

Um relato legal foi do Moikano, piloto de asa delta, cujo link ta no meu blog, que relata a proximidade dele com a morte: "Eu decolei 08:40h em Quixadá (Ceará) com vento forte mas nada de exagerado...forte. e o tempo todo monitorando o horario pra ver se realmente valeria a pena continuar, ja que a condiçao estava com poucas nuvens..tipo 30%(pouco antes do acidente)e muito azul pra frente. voei 45km na primeira hora e 58 na segunda hora. eu capotei com duas horas de voo e 103 km voados, um pouco antes de monsenhor tabosa. Lembro isso claramente pois havia olhado o compeo segundos antes!!! estava tirando de uma base de nuvem pra outra um pouco mais escura e na sequencia da rota. Quando me aproximei dessa outra nuvem...voando o melhor planeio de minha asa sem estar todo picado (nunca voo todo cassado!!!nunca!!! sempre volto um palmo da marcha toda, mas pode ser que nao tenha tido esse cuidado ) ...uma frouxada de cabo animaaaaal e uma descendente mais forte ainda que me levou o speed bar das maos e uma porrada brusca com a cabeça na quilha...foi muito rapido e nao tive tempo de resposta, tipo segurar o speed com mais força para nao perde-lo. Quando se está fazendo acrobacia, tu esta preparado se isso ti ocorre!!! mas voando cross coutry às 10:40h da manha..., e o mais importante: o voo nao estava TURBULENTO em hora nenhuma!!!

bom, foi uma capotada fortissima, o GPS se desprendeu da asa e caiu, eu perdi o speedbar (barra de comando da asa que o piloto segura) com 1.500m de altitude, acionei o para-quedas reserva de emergência e lancei esperando o impacto pra cair mais devagar ja que neste momento estava em giro e caindo rapido...pra minha surpresa o tal impacto nao aconteceu e sim segundos depois minha asa quebrou (acho que no break down) e começou a girar mais rapido ainda...eu era feliz e nao sabia!! aí foi foda!!! batoquei (puxar natentativa de abri-lo) o paraca de tudo que foi jeito e nada....nada abria aquele corpo vermelho e branco, só fazia um barulho de bandeira no ventao... o chao cada vez menos colorido...meus pedidos de "por favor abra ", "sou tão novinho" nao haviam sido atendidos....pensei: vou fazer a passagem...o chao ja na cara...vou aproveitar os segundos que me restam e ficar em paz...agradeci tudo de bom que ja tinha vivido, agradeci a familia maravilhosa que tinha tido,dizendo em voz alta e chorando que os amava, os amigos que tinha feito, me despedi...e tudo começou a passar, nao em filme mas em fotos...rostos... nesse momento procurei relaxar.......................
....pensei no encontro em Deus e numa boa acolhida Dele.....pensei só coisa boa....sem desespero........sem palavrão .......

em arvores secas num valezinho estreito Deus me encaixou...a asa veio se quebrando até bem perto do chao...meu corpo ficou a centímetros de tocar os pes de novo na terra....EU AINDA VOU VOAR!!! EU NAO PERDI NINGUEM!!! era só o que eu pensava!!!agradeci a Deus a GENTILEZA de estar vivo.

Com muita dor nas costas caminhei até uma subidinha de morro só com meu radio e telefone ja que meu Compeo (GPS + Variomômetro integrados) tinha sumido. Só fiz contato com a base usando uma antena telescopica...um outro piloto que avistei passou uma cordenada próxima do local onde eu estava, me mandaram esperar o helicóptero...ai pensei: po nunca voei de helicoptero........deitei e esperei...esperei....esperei...desidratando e esperando, tinha uns 200 ml de agua que só molhava a boca...no topo dum morrinho pra facilitar a visualizaçao...e esperei tanto que me irritei.....ai com muita dor, muita mesmo, escolhi um carreiro lá, o mais gasto,eu estava sem rumo da civilizaçao mais proxima, mas precisava caminhar ja eram 16:30h e logo ia escurecer. .." veja a continuacao no blog do VILS

Luis Bento disse...

Primeiro fiquei seduzido pela biografia... uma geografia de vida retalhada por várias regiões...depois os textos...a qualidade narrativa, o humanismo...a meditação. Vou seguir!

Jou Jou Balangandã disse...

Luis, seja bem vindo!
Obrigada pela presença e pelos elogios ... já andei muito pela sua terra! Saudades mil dos pastéis em Belém e dos travesseiros e queijadas de Sintra.
Bjos